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sábado, 10 de novembro de 2007

Escorar a vida


Vagueio por entre os trilhos da cidade
enfrento os espaços
os edifícios mais as amontoadas silhuetas
e pasmo a flutuar
saio dali e abafo as formas com o silêncio
profundo do futuro.

Esgravato um alicerce para escorar aí a minha vida
mas ouço apenas o cantar de um pássaro
não é um rouxinol
é um murmúrio longo misterioso
igual ao som do vento
a sussurrar nas gargantas das ruas estreitas.


Rui Caetano

sábado, 3 de novembro de 2007

Homem sem rua

Pintura de Rembrandt, o mendigo


O homem
mendigo sem rua
adormece sob a costura do mundo
sem nunca perder o sorriso
que arde frio na imaginação da noite

estende o leito
com o jornal da tarde de longos dias
onde abandona o corpo desgastado pelo desejo

abafa
a notícia sempre mais além
e não consegue ler que a vida é nada
mas pior ainda
não descobre a tempo que o seu destino não chega a nascer
e se nascesse
decidiria envelhecer na orla oposta à felicidade

o homem
mendigo sem rua
cerra a luz perdida
no olhar cansado de uma vontade
até ao dia da libertação da notícia espezinhada.

Rui Caetano

sábado, 29 de setembro de 2007

Ser Poeta

O poeta
abre a casa da pedra irreal
para esboçar a areia sem cor

cria o espelho com o linho das palavras
pois só ele conhece a dança da primavera
nos lábios frágeis de uma flauta.

Com a nitidez das notas
ergue as pálpebras
o poeta
contra a arrogância do vento

e não esconde o mito original
de juntar o aroma dos pomares
ao sal de uma lágrima
liberta
pelo esplendor da criação.

Rui Caetano

(Desta vez, deixo aqui uma poesia da minha autoria)

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Poesia para um sonho


Confiança

O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura...
E que a doçura
Que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova...


Miguel Torga

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Poesias

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo no chão, apodrecidos.

Eugénio de Andrade


Temos de olhar para o que acontece a nosso redor!